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Gastronomia por Roberta Sudbrack
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14/04/2008 ..

Cachorro quente na madrugada...



Há algum tempo prometo esse flashback para a minha equipe: o famoso cachorro quente que preparava na minha carrocinha em Brasília chamada carinhosamente de “Canil quente e Cia”. Demorou, mas sábado finalmente esse dia chegou. No final da noite preparei para toda a equipe o famoso cachorro quente que por tantos anos vendi nas ruas de Brasília madrugada adentro. Foi uma viagem interessante. Uma volta a um passado que não foi lá muito fácil, mas que afinal, fez parte e agregou valores fundamentais a essa história.

Foi uma noite especial na casinha laranja, como se de alguma maneira as paredes pudessem pressentir o que aconteceria naquela madrugada. A casa ficou cheia, mas o serviço transcorreu numa tranqüilidade de causar espanto aos que conhecem os bastidores e a engrenagem de um restaurante em pleno vapor. Os clientes respeitaram os horários estabelecidos na reserva, o que para a cozinha e salão, é regra fundamental! Fazer uma cozinha artesanal, onde tudo é preparado na hora do pedido, sem esse escalonamento de horários, é humanamente impossível.

A mesa única estava cheia, e desse jeito, ela fica reluzente de alegria. Agrega, divide, reúne, ou seja, literalmente cumpre o seu papel. O que também nos inspira e alegra. Os que preferem as mesas individuais, também estavam felizes e respeitando o ritmo que harmoniza com o ritual proposto. No final da noite consegui dar uma passada rápida pelas mesas – às vezes simplesmente não dá!

Numa mesinha perto da cozinha os olhinhos de uma moça brilhavam tanto, que se naquela noite faltasse luz, não seria um problema. Fui informada de que o brilho pertencia aos olhos de uma estudante de gastronomia que sonhara com aquele dia. Fui até lá cumprimentá-la. Encanta-me essa paixão bruta e ainda não lapidada nos olhinhos deles. Principalmente quando a paixão é pura, natural e sem conservantes. Depois de algumas palavras trocadas, a mãe, orgulhosa com a escolha da filha, o que também muito me encanta, disse: “Ela estuda gastronomia e conhece toda a sua vida, toda a sua história, desde o tempo em que você ainda vendia cachorro quente. E hoje ao entrar aqui, ver essa casa, observar a maneira com que você cozinha e trata cada detalhe, ela decidiu que quer ser como você”. Olha, foi difícil segurar o nó na garganta. A emoção foi quase mais forte do que o equilíbrio das minhas pernas, que àquela altura da noite já estavam bem cansadas.

Voltei para a cozinha e o serviço já estava terminando. Comecei a arrumar a minha área de trabalho para o preparo do cachorro quente. Mais ou menos como fazia toda tarde, quando armava a carrocinha na entrada da quadra 102 Sul em Brasília. Agrupei o mise- en-place, cortei os pães, coloquei a água para ferver e acomodei delicadamente as salsichas. Comecei a interagir com aquele ritual, não como quem está fora da cena, mas como alguém que nunca saiu dela. Acendi o fogo onde a panela do molho estava e assisti a fascinante mágica do aquecimento. Nesse momento, observando a reação entre o fogo e o liquido – como diria um seguidor da cozinha do momento! – deixei o tempo me levar pela mão sem resistir e revivi muitas cenas dessa minha vida. Etapas, percalços, superações e vivências até chegar a essa cena tão sonhada: aquecer o molho para preparar o velho cachorro quente da carrocinha, para os meus funcionários. Agora, no meu restaurante.

Nessa hora o nó na garganta me venceu, mas eu também não resisti, e como naquela cena do filme “Como água para chocolate”, acabei acrescentando o tempero que faltava no molho do cachorro quente naquela madrugada.

Até!
16/04/2008 ..

Encontro com pensamentos...



Trancada no elevador às duas da manhã, depois de chegar exausta do restaurante, louca por um banho morno, tive um encontro com pensamentos. Encontrar pensamentos devia ser como um encontro amoroso. A gente deveria vestir a melhor roupa ou pelo menos aquela que nos cai melhor. Aquela que nos faz parecer mais magra! Deveríamos nos preparar psicologicamente, mesmo sabendo que na hora tudo pode acontecer. O melhor e o pior. As palavras podem faltar, a visão pode turvar e a bobeira pode falar mais alto. Normalmente é assim!

Encontrar pensamentos deveria ser como ir ao balé domingo à tarde no Municipal. Deveríamos nos imbuir daquela leveza dominical, da delicadeza dos movimentos dos dançarinos, do clima de cidade do interior que paira no ar nessas ocasiões. E deveríamos comprar bala de goma e confete para esses encontros, assim como compramos quando vamos ao Municipal! É a primeira coisa que eu faço, porque a bala é ótima e eu acho um charme aquela caixinha com a logomarca do Municipal.

Encontrar pensamentos deveria ter o clima de um bom jantar. Chegar na hora marcada ao restaurante. Sentar, deliciar-se com os detalhes. Envolver-se pela música, pelas flores, pelos guardanapos. Livrar-se da neurose cotidiana e tentar viver a cena. Aliás, é assim que os espanhóis definem o jantar: a cena. Acredito que não exista outra palavra mais poética, ou melhor, para definir o verdadeiro sentido desse momento.

Encontrar pensamentos deveria ser um exercício habitual. Alimenta a mente, exercita os neurônios e alivia a tensão. Principalmente às duas da manhã trancada dentro de um elevador, sem cena, encontro amoroso ou ingressos para a temporada de balé 2008!

Até!
18/04/2008 ..

Olhar...



Já consegui sair do elevador, mas confesso que ando aproveitando a deixa para fazer mais exercícios. Nunca mais subi e nem desci de elevador! Principalmente quando chego do trabalho. Exausta por exausta, melhor cansar as pernas mais um pouquinho e depois recompensar no banho morno.

Minha avó todo dia diz essa frase: “seguro morreu foi de velho”. Ando prestando muito mais atenção nesse ditado depois da minha madrugada presa no elevador. O que também me levou a refletir sobre a real necessidade de pegar o elevador para ir apenas até o primeiro andar! A cozinha é inevitavelmente o reflexo da vida. Nela a gente se expressa, se mostra, se encontra e reflete.

Refletir em minha opinião é o pulo do gato na vida e na cozinha. Fazer por fazer não tem a menor graça. Não agrega nada, não instiga. Pensar, interagir com a cena, com o elemento, com as possibilidades. Aí está a grande graça! Aí está o lado interessante de se estar vivo. Estar vivo para ficar preso no elevador e descobrir que nunca se precisou dele! Estar vivo para descobrir que dentro do quiabo sempre existiu caviar, mas o nosso olhar saturado e preguiçoso insistia em enxergar sementes!

Até!
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